a greve e a discussão que precisamos parar de adiar


Uma greve de caminhoneiros e o país pára – mais despreparado para qualquer eventual emergência impossível. Paralisação que expôs o quão frágil é o picadeiro. Expôs vulnerabilidades. Expôs nossa dependência do petróleo. É inacreditável que estejamos discutindo a falta de pão no McDonald’s e não aproveitamos o país parado, disfuncional, para discutir o que precisa ser discutido.

Mais uma vez se perderá a chance de discutir o que interessa? Nada contra o irmão caminhoneiro, mas se acredito em nosso futuro comum, não posso apoiar nenhum movimento cujas demandas sejam em prol de subsídios para petróleo. Em última análise, retirar impostos do diesel ou da gasolina é isso – subsídios governamentais para petróleo, para o modal rodoviário. O dinheiro público deveria ser melhor investido.

Medidas populistas que retiram impostos de algum combustível para colocá-los em outro lugar não resolvem problema algum.  A discussão que precisamos parar de adiar data dos anos 80, quando tivemos  crise de desabastecimento (lembram da falta de gasolina e, depois, do pró-álcool dando ruim e da falta de álcool?). Quão ultrapassado é discutir subsídios para petróleo, energia finita, poluente e patrocinadora de guerras? 

Andando sempre na contramão do desenvolvimento sustentável, cá estamos defendendo subsídios estatais para o modal rodoviário. Estupidez dos pontos de vista econômico e ambiental. A discussão que deveríamos ter não é sobre preço da gasolina ou sobre o aumento do preço da batata, sim sobre matriz energética e transição para uma economia verde*. É sobre diversificação dos modais de energia e de transportes – somos dependentes de petróleo e água, já parou para pensar nisso? Não temos sequer reservas estratégicas.

The current economic contraction and the growing interest of national governments in kick-starting a world-wide recovery represent an opportunity to tackle important long-run economic and environmental challenges together. Fiscal measures aimed at economic recovery and job creation can and need to be made compatible with developing a low-carbon world economyTowards a Global Green Recovery


Desde a London Summit de 2009 os países do G20 tem em mãos um relatório com menos de 50 páginas chamado Towards a Global Green Recovery – recommendations for immediate G20 action (Rumo a uma Recuperação Verde Global - recomendações para ação imediata do G20). Os países do G20, grupo do qual o Brasil faz parte, são a arena chave para promover a ação internacional necessária. Por quê? Maiores economias, maiores populações, maiores poluidores.

Sem histerias desenvolvimentistas ou ambientalistas, o relatório encomendado pelo German Foreign Office traz uma série de recomendações de adaptações da economia e dos modelos tecnológicos para enfrentar a crise econômica e ambiental por vir**. Adaptações de forma a criar oportunidades econômicas para saída e enfrentamento da crise. O relatório também traz os custos da ação e da inação para mitigação e adaptação à crise dupla – econômica e ambiental***.

Resolver a crise econômica com investimentos na mitigação e na adaptação à crise ambiental custa menos e é mais racional no médio e no longo prazos. É necessária a transição rumo a uma economia verde se quisermos nos adaptar para crises ambientais (e a gente não precisa acreditar nas crises, mas elas virão 😉 pela falta d’água inclusive – lembre-se que nossa matriz energética é dependente de água, baseada em hidrelétricas).

As recomendações apontam para o enfrentamento de crises econômicas e a reorientação do desenvolvimento em direção ao crescimento sustentável. Os governos deveriam, num primeiro momento, focar em melhorar a eficiência energética e a infraestrutura física e em incentivar mercados de tecnologia limpa. Num segundo momento, iniciar projetos emblemáticos e pioneiros, reforçar pesquisa e desenvolvimento voltados para tecnologias limpas e incentivar investimentos nessas pesquisas. Finalmente, para que as medidas tomadas por cada país sejam efetivas, é necessário coordenar esforços entre os países. 

A atual contração econômica e o crescente interesse dos governos nacionais em dar o pontapé inicial de uma recuperação mundial representam uma oportunidade para enfrentar importantes desafios econômicos e ambientais de longo prazo juntos. Medidas fiscais destinadas a recuperação econômica e a criação de empregos podem e devem ser compatíveis com o desenvolvimento de uma economia mundial de baixo carbono” – Towards a Global Green Recovery (tradução minha)


O relatório que citei é apenas um dos vários estudos de diferentes fontes que nossos líderes e burocratas tem em mãos há tempos, décadas, e escolhem não levar em consideração. Precisamos pensar em muito mais do que novas alternativas viáveis de transporte. O que este e outros relatórios afirmam é que a transição para uma economia verde necessita de mudanças comportamentais e de desenvolvimentos tecnológicos e econômicos simultâneos e complementares.

Nessa transição, os vetores tecno-econômicos incluem acelerar o ritmo de crescimento da eficiência energética e aumentar a reciclagem. Aumentar a proporção das energias não-fósseis renováveis (eólica, solar, biocombustíveis) na matriz energética. Aumentar a proporção de energia nuclear nessa matriz. Promover o uso de carros híbridos e aumentar o uso do transporte coletivo ao mesmo tempo em que se incentiva a diminuição do uso do carro. Usar carros menores e mais leves. Investir em transporte ferroviário de cargas e de passageiros. Parar o desmatamento. Reflorestar áreas desmatadas.

Incrementar a utilização de técnicas agropecuárias como plantio direto, irrigação de precisão e rações de gado que gerem menos metano. Diminuir o consumo de carne de vaca. Usar eficientemente a água nos consumos doméstico, agrícola e industrial. Aumentar reuniões via teleconferência. Frear o crescimento do transporte aéreo e desenvolver aviões com materiais mais leves, desenho mais aerodinâmico e maior eficiência energética. Criar um ambiente cultural e institucional favorável à sobreposição e sinergia entre as novas tecnologias energéticas e as revoluções na tecnologia da informação e comunicação e a da nanotecnologia.

Deveríamos estar promovendo uma visão do desenvolvimento associada à sustentabilidade ambiental, mas estamos discutindo a manutenção dos incentivos ao modal rodoviário. Uma estupidez. Que cenário futuro nos aguarda? Entendam o seguinte: quem paga o custo do achismo e da inação não somos nós, são as gerações futuras. O caos ainda nem começou, como costumam dizer os apocalípticos. O buraco é mais embaixo.

Precisamos parar de apoiar acriticamente qualquer demanda que nos pareça justa diante do cenário de desesperança no qual o país se encontra. Ninguém deveria estar brigando por mais subsídios, diretos ou indiretos, ao petróleo – a briga deveria ser por investimentos em alternativas. Pode parecer frase feita de influenciador do instagram, mas é preciso investir e apostar numa economia verde. O Brasil vai mesmo esperar e pagar para ver o custo da inação?



👉 O relatório Towards a Global Green Recovery pode ser lido AQUI 😉


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*economia verde = economia baixo carbono
** Crise ambiental por vir: uso irresponsável e predatório de recursos naturais finitos; destruição de biodiversidade e de nascentes a partir da destruição da flora que surge a partir do crescimento populacional e urbano... Sem alarmismo, mas previsivelmente a crise virá. Quem estiver melhor preparado passará melhor por ela.
***Conceito de crise dupla – econômica e ambiental. Uma retroalimenta a outra: problemas ambientais impactam a economia, assim como problemas econômicos impactam o meio ambiente. Precisamos parar de agir como se fossem coisas separadas.


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EN
THE STRIKE AND THE DEBATE WE NEED TO STOP POSTPONING

A strike of truckers and the country stops – it’s impossible to be more unprepared for any eventual emergency. Paralysis that exposed how fragile is the circus. Exposed vulnerabilities. It exposed our dependence on oil. It is unbelievable that we are discussing the lack of bread at McDonald's and we don’t take advantage of the shut, dysfunctional country, to discuss what needs to be discussed.

Once more we’ll lose the chance to discuss what matters? Nothing against the brother trucker, but if I believe in our common future, I cannot support any movement whose demands are for oil subsidies. Ultimately, levying taxes on diesel or gasoline is that - government subsidies for oil, for the road mode. Public money should be better invested.

Populist measures that levy taxes on some fuel to put them elsewhere do not solve any problem. The discussion we need to stop deferring dates back to the 1980s, when we had a shortage crisis (remember the lack of gasoline and then the lack of alcohol?). How obsolete is it to discuss subsidies for oil, finite energy, pollutant and sponsor of wars?

Always going against sustainable development, here we are defending state subsidies for the road sector. Stupidity from the economic and environmental points of view. The discussion we should have is not about the price of gasoline or about the price increase of any food, but about the energy matrix and the transition to a green economy *. It is about diversification of the energy and transport modes - we are dependent on oil and water, have you stopped to think about it? We don’t even have strategic reserves.


Since the 2009 London Summit, the G20 countries have in their hands a report with less than 50 pages called Towards a Global Green Recovery - recommendations for immediate G20 action. The G20 countries, a group of which Brazil is part, are the key arena to promote the necessary international action. Why? Biggest economies, biggest populations, biggest polluters.

Without developmental or environmental hysteria, the report commissioned by the German Foreign Office presents a number of recommendations for adapting the economy and technology models to face the economic and environmental crisis to come**. Adaptations in order to create economic opportunities to exit and face the crisis. The report also includes the costs of action and inaction to mitigation and adaptation to the double crisis - economic and environmental ***.

Solving the economic crisis with investments in adaptation to the environmental crisis costs less and is more rational in the medium and long terms. The transition to a green economy is necessary if we are to adapt to the environmental crisis (and we don’t have to believe in any crisis, but they will come 😉 including due to the lack of water - remember that our energy matrix is water dependent, based on hydroelectric plants?).

The recommendations point to the confrontation of economic crisis and the reorientation of development towards sustainable growth. Governments should, first of all, focus on improving energy efficiency and physical infrastructure and encouraging clean technology markets. In a second moment, they should initiate flagship projects, enhance research and development focused on clean technologies and encourage investments in these researches. Finally, in order for the measures taken by each country to be effective, it is necessary to coordinate efforts among countries.


The report I mentioned is just one of several studies from different sources that our leaders and bureaucrats have long held and choose not to take into account. We need to think of more than new viable alternatives to transportation. What this and other reports say is that the transition to a green economy requires both behavioral changes and simultaneous and complementary technological and economic developments.

In this transition, the techno-economic vectors include accelerating the pace of energy efficiency growth and increasing recycling. Increase the proportion of non-fossil renewable energies (wind, solar, biofuels) in the energy matrix. Increase the proportion of nuclear energy in this matrix. Promote the use of hybrid cars and increase the use of public transportation while encouraging the reduction of car use. Use smaller and lighter cars. Invest in railroads. Stop deforestation. Reforesting deforested areas.

Increase the use of farming techniques such as no-tillage planting, precision irrigation and livestock food that generate less methane. Decrease consumption of beef. Use water efficiently in domestic, agricultural and industrial consumption. Increase meetings via teleconference. Braking the growth of air transport and developing airplanes with lighter materials, more aerodynamic design and greater energy efficiency. Create a cultural and institutional environment favorable to the overlap and synergy between new energy technologies and the revolutions in information and communication technology and nanotechnology.

We should be promoting a vision of development associated with environmental sustainability, but we are discussing the maintenance of incentives to the road modal. Stupidity. What future scenario awaits us? Understand this: those who pay the cost of inaction are not us, they are future generations. The chaos has not yet begun, as the apocalyptics often say. The hole is further down.

We need to stop uncritically supporting any demand that seems fair to the scenario of hopelessness in which the country finds itself. No one should be fighting for more direct or indirect subsidies to oil - the fight should be for investments in alternatives. It may sound like an instagram influencer, but we have to bet and invest in a green economy. Will Brazil really wait and pay to see the cost of inaction?



👉 The report Towards a Global Green Recovery can be read HERE 😉


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* green economy = low carbon economy
** Environmental crisis to come: irresponsible and predatory use of finite natural resources; destruction of biodiversity and springs that come from the destruction of flora that comes from population and urban growth… Without alarmism, but predictably the crisis will come. Those who are better prepared will do better through it.
*** Concept of double crisis - economic and environmental. One feeds the other: environmental problems impact the economy, just as economic problems impact the environment. We need to stop acting like those were separate things.