o job dignifica

O trabalho pode até dignificar alguém, mas pelo visto isso acontece mais com quem segue éticas religiosas. Risos. Há quem aprenda, embora explorado. E há quem explora, embora... Dignidade sob qual ponto de vista? O espírito do capitalismo é onipresente, senhoras e senhores. E, de vez em quando, a gente dá a sorte de ser explorado enquanto ganha algo com isso. Paradoxo?

Lá nos idos de... Foda-se o ano. Desimportante. Foi um destes Turning Points do sistema. O trabalho era produzir 25 mil imagens no Brazil – 5 mil em cada região. Todos os estados. Literalmente, de norte a sul, do litoral ao interior. Todos os biomas. Todas as raças. Todas as classes. Onze meses desenfreados, sem finais de semana ou feriados. Que aula de geografia! Tapa (de realidade) na cara. 

Aprendi naquele job* que as estatísticas eram falseadas, não traduziam a realidade. O país talvez tenha mais do que 1 em cada 5 brasileiros abaixo da linha da pobreza. O Banco Mundial estima que 22% esteja abaixo da linha da pobreza. Aquele job me mostrou que provavelmente esse valor seja subestimado. Somos um país pobre. Paupérrimo!

Dizem que havíamos saído do mapa da fome – mas a verdade é que nunca saímos. As estatísticas é que estavam sendo, digamos, otimistas. Somos fodidos. Metade do país não tem acesso nem à coleta de esgoto. Não vamos sequer ao banheiro com o mínimo de dignidade. Nossos problemas não acabam no vaso sanitário: quase metade dos brasileiros sobrevivem com menos de um salário mínimo e somente 1/4 da população é alfabetizada na língua portuguesa.

Apenas 8% da população tem condições de compreender e se expressar plenamente em seu próprio idioma. Percebe? Esse é o único debate em torno da liberdade de expressão que importa. Enquanto não se enxerga o Brasil real além das afetações ideológicas, enquanto não se traz para o centro do debate os problemas que impactam a vida de quem não sabe o que é close errado... Candidatos conservadores tendem a crescer nas pesquisas de opinião.

Podia ser África subsaariana. Não conseguimos resolver boa parte dos problemas que nos rondavam no século dezenove. Mas parte da elite intelectual segue cretina, discutindo coisas que fariam sentido noutra realidade. O Brasil não é a Noruega ou a Finlândia. No Brasil, quando acabar o dia, bem mais de cem pessoas terão sido assassinadas, outras tantas estupradas. O Brasil é uma imensa favela, uma zona de guerra na qual a próxima vítima pode ser qualquer um.

aquele tal Banco de Imagens no Facebook e na mídia

Quando fui trabalhar na produção daquele banco de imagens, não imaginava o tamanho do aprendizado. Que aula sobre realidade brasileira! Ganhávamos um salário risível (diante do valor da licitação) para nos arriscar Brasil afora. Olhem os índices de violência. Olhem as condições de transporte em todas as regiões. Olhem as condições de visitação de parques nacionais, de locais afastados dos centros. 

Por que ninguém viaja para o Brasil? Se até a gente viaja para fora... Você recomendaria aos seus amigos gringos? É caro e inseguro. Belíssimo, entretanto. Para quem pode pagar destinos caros e exclusivos, por que não? Para quem pode, o mundo inteiro. Para o resto, o cinismo.


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*job é como insistem em chamar os trabalhos 😉

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