homens de fé
Ouvi muitos relatos
de violência sexual ao longo da vida. Dos mais variados tipos. Diversos deles vem
de mãos dadas com a violência doméstica, com o gaslighting. Desde que comecei a pesquisar e escrever sobre o tema (para um futuro livro) e estou aberta a
ouvir quem quiser me contar sua história para me ajudar na construção das
personagens... tenho ouvido mais relatos ainda. Alguns chocantes – senão todos.
Quase sempre o
abusador, o violador, é alguém que a vítima confia. Frequentemente, a vítima se
cala – pela relação com o violador e por ter a sensação de que ninguém
acreditará nela. Se ele não é um estranho que te agarrou à força na rua e nem
te bateu... quem acreditará em você, não é mesmo? E quem pode condenar uma
mulher por se calar, em vez de denunciar? 😔
Veja o caso do
João. Centenas de denunciantes. Centenas! E, ainda, assim, há gente que duvida
delas. Devem ter algum interesse obscuro, que vai de vingança a finanças. Ele é
um homem sagrado, nunca faria isso. Não fez isso. Centenas mentem! Um diz a
verdade. Há gente o denunciando por tráfico de bebês e cárcere privado de
mulheres para procriação, mas deve ser vingança de alguma fiel insatisfeita. Um
homem santo não faria nada disso.
A gente pode
especular sobre o que leva pessoas supostamente racionais a acreditarem em um e
duvidar de centenas. A gente pode especular sobre o que leva pessoas supostamente
racionais a acreditarem e a procurarem cura espiritual. A gente pode especular
muita coisa. A verdade é que, como João, há vários outros. Sempre houve. E,
enquanto houver fé, haverá.
Padres, gurus,
médiuns, kardecistas, pastores... As religiões podem até conter hipocrisia, mas
a única verdade incontestável por trás de cada acusação de violência sexual
contra líderes religiosos e espirituais não está relacionada com religião
alguma. Não é nas religiões que não se pode confiar. É nos homens. É neles que
não se pode crer. De falsos profetas o mundo sempre esteve cheio. De gente
precisando de motivos para acreditar em milagres, também.
Homens de fé. O caso
do João tem um quê de Charles Manson – a comunidade alternativa, as ideias
grandiosas do líder, o grupo de admiradores que o considera a reencarnação do
messias. Seguidores fragilizados emocionalmente. Talvez sirva para alertar que
a fé transforma muita gente em cúmplice de crimes perversos. Talvez sirva para indagar
o que autoridades religiosas diversas fazem para livrar a sociedade dos
abusadores que agem em nome da fé.
Nada mais perigoso
que o culto à personalidade de um predador sexual, capaz de enganar milhares de
pessoas se valendo do medo da morte, da fé e da esperança numa (improvável)
cura espiritual. Quando precisou se tratar, João correu para os médiuns do
Albert Einstein. Idolatrado por uma cidade que sobrevive da exploração da
miséria espiritual humana. Em terra de picaretas, cobram-se valores absurdos em
garrafas d'água mineral abençoadas pelo charlatão e em serviços como
hospedagem.
Gente vulnerável
cai na lábia de gente oportunista e abusadora. Cabe lembrar que, para a
legislação criminal, a vulnerabilidade da vítima em casos de violência sexual
abrange as situações em que ela não tenha condições de consentir com o ato
sexual: ou por ser menor, portar deficiência ou mesmo quando por qualquer causa, não possa oferecer
resistência. Para análise dessa vulnerabilidade, todos os fatores, inclusive
emocionais e psíquicos da vítima no momento do ato, devem ser considerados. É
uma avaliação que deve ser feita caso a caso.
E resta alguma
dúvida de que os homens de fé agem de má fé e se aproveitam da fé alheia? Sua
pena devia ser aumentada, oras! Além disso, o que as autoridades responsáveis tem
a dizer sobre todos os anos nos quais o Dr Fritz enfiou tesouras em narizes e
fez incisões sem anestesia ou assepsia? Curandeirismo é crime previsto no
Código Penal. Quer tomar passe, receber oração, participar de rituais, etc...
ok, está dentro da liberdade religiosa. Mas cirurgia física não pode.
A atividade dos
joões da vida é crime tipificado, (claro que) não tem suporte científico e
simplesmente não poderia acontecer. Ponto final. Não há que se passar a mão na
cabeça de nenhum deles. Não há que se defender o que fazem. Muito menos caso
cometam, junto ao abuso da fé, o abuso sexual.
Não queremos
aceitar que há abusadores aos montes. Não queremos lidar com isso, não queremos
enxergar que nossa cultura protege esses homens e que eles só conseguem cometer
abusos, muitas vezes por anos, porque contam com a conivência de todos. Abuso sexual
é um problema . Ou a gente cria mecanismos eficazes de prevenção,
denúncia e investigação e pensa formas de lidar com abusadores... ou vamos continuar
um país líder em violência contra mulheres.
Leia também:
